Doenças Respiratórias10 min de leitura

Rinite Alérgica em Crianças: Sintomas e Tratamento

Dra. Paula Andrade

CRM-SP 204778 | RQE 131771 | Título SBP 2024

Revisado por Pediatra

A rinite alérgica é a doença alérgica mais comum na infância, afetando cerca de 26% das crianças no Brasil. Os espirros em salva, o nariz entupido e a coceira constante atrapalham o sono, a concentração na escola e a qualidade de vida. A boa notícia é que, com diagnóstico correto e tratamento adequado, é possível controlar os sintomas e evitar complicações. Neste guia, explico como identificar, tratar e prevenir crises de rinite no seu filho.

Resumo Rápido

O que é: Inflamação da mucosa nasal causada por reação alérgica a substâncias inaladas (ácaros, poeira, pólen)

Sintomas principais: Espirros em salva, coceira no nariz e olhos, coriza clara e obstrução nasal

Tratamento: Lavagem nasal + controle ambiental + anti-histamínicos ou corticoides nasais

Prognóstico: Muitas crianças melhoram com a idade; controle adequado evita complicações

O Que é Rinite Alérgica?

A rinite alérgica é uma inflamação da mucosa nasal desencadeada pelo contato com substâncias que o sistema imunológico da criança identifica (erroneamente) como nocivas — os chamados alérgenos. Os mais comuns são ácaros da poeira domiciliar, mofo, pelos de animais e pólen. Se você tem dúvidas sobre quando procurar ajuda, veja nosso guia sobre quando levar o bebê ao pediatra.

Quando a criança inala esses alérgenos, o organismo produz um anticorpo chamado IgE, que desencadeia uma reação inflamatória: a mucosa nasal incha, produz muco em excesso e os nervos locais são estimulados, causando coceira e espirros. É uma resposta exagerada do sistema imunológico — a substância em si não é perigosa.

A rinite frequentemente está associada a outras doenças alérgicas como dermatite atópica, asma e conjuntivite alérgica — o que chamamos de “marcha atópica”. Crianças com uma doença alérgica têm maior risco de desenvolver as outras. A tosse crônica é outro sintoma frequentemente associado à rinite, por conta do gotejamento pós-nasal.

Dados sobre Rinite Alérgica Infantil no Brasil

26%

das crianças brasileiras são afetadas

80%

dos casos iniciam antes dos 20 anos

40%

têm asma associada

Tipos de Rinite Alérgica

A classificação atual divide a rinite alérgica pela duração e gravidade dos sintomas:

Intermitente

  • Sintomas menos de 4 dias por semana
  • Ou duração menor que 4 semanas consecutivas
  • Comum em alergia a pólen (sazonal)

Persistente

  • Sintomas 4 ou mais dias por semana
  • E duração maior que 4 semanas consecutivas
  • Comum em alergia a ácaros (o tipo mais frequente no Brasil)

Sintomas: Como Identificar no Seu Filho

Os sintomas clássicos da rinite alérgica são fáceis de reconhecer quando você sabe o que observar:

Sintomas Nasais

  • Espirros em salva (vários seguidos, especialmente ao acordar)
  • Coriza clara e abundante (secreção transparente e aquosa)
  • Obstrução nasal (nariz entupido, alternando os lados)
  • Coceira intensa no nariz (a criança coça ou esfrega o nariz constantemente)
  • Respiração bucal (boca aberta por obstrução)
  • Roncos noturnos e sono agitado

Sinais Associados

  • Olheiras alérgicas — escurecimento embaixo dos olhos pela congestão venosa nasal
  • Saudação alérgica — gesto de empurrar o nariz para cima com a palma da mão
  • Prega nasal transversal — marca horizontal no nariz de tanto esfregar
  • Coceira nos olhos, ouvidos e garganta — frequentemente acompanha a rinite

Dica de Pediatra

Se seu filho coça o nariz constantemente, espirra ao acordar ou tem o nariz entupido quase todo dia, observe: esses sintomas pioram ao varrer a casa, trocar roupa de cama ou em dias frios? Se sim, provavelmente é rinite alérgica. Anote quando os sintomas pioram — essa informação ajuda muito no diagnóstico.

Rinite Alérgica ou Resfriado? Como Diferenciar

Uma das dúvidas mais comuns dos pais é saber se o filho está com gripe/resfriado ou rinite. A tabela abaixo ajuda a diferenciar:

CaracterísticaRinite AlérgicaResfriado
DuraçãoSemanas a meses (enquanto houver exposição)5 a 10 dias
FebreNãoFrequente (baixa)
Secreção nasalClara e aquosa (sempre)Começa clara, fica amarelada/esverdeada
CoceiraIntensa (nariz, olhos, garganta)Leve ou ausente
EspirrosEm salva (5-10 seguidos)Ocasionais
PadrãoPiora com gatilhos (poeira, frio, animais)Início definido, piora em 2-3 dias e melhora

Causas e Fatores de Risco

A rinite alérgica tem dois componentes fundamentais: predisposição genética (atopia) e exposição a alérgenos. Os principais gatilhos são:

Alérgenos Principais

  • Ácaros da poeira — causa mais comum no Brasil (Dermatophagoides pteronyssinus)
  • Fungos (mofo) — proliferam em ambientes úmidos
  • Pelos e saliva de animais — gatos são mais alergênicos que cães
  • Pólen — mais relevante no sul do Brasil
  • Baratas — alérgeno importante em áreas urbanas

Irritantes (agravam, não causam)

  • Fumaça de cigarro — irritante potente das vias aéreas
  • Produtos de limpeza com cheiro forte
  • Perfumes e desodorizadores de ambiente
  • Mudanças de temperatura (ar frio e seco)
  • Poluição do ar — agrava sintomas em grandes cidades como São Paulo

Diagnóstico

O diagnóstico da rinite alérgica é essencialmente clínico — baseado nos sintomas e na história da criança. O pediatra avalia a duração, frequência e os gatilhos dos sintomas. Exames complementares podem ajudar a identificar quais alérgenos estão envolvidos:

Teste Cutâneo de Alergia (Prick Test)

Pequenas gotas de alérgenos são aplicadas na pele do antebraço, com uma leve picada. Resultado em 15-20 minutos. É o teste mais rápido, barato e confiável. Pode ser feito a partir dos 6 meses de idade.

IgE Específica (Exame de Sangue)

Mede no sangue os anticorpos IgE contra alérgenos específicos. Indicado quando o teste cutâneo não pode ser feito (uso de anti-histamínicos, dermatite extensa). Resultados em alguns dias.

Nasofibroscopia

Exame com câmera fina pelo nariz para avaliar a mucosa nasal, tamanho das adenoides e presença de pólipos. Indicado em casos de obstrução nasal persistente ou quando há suspeita de hipertrofia de adenoide.

Tratamento da Rinite Alérgica Infantil

O tratamento da rinite alérgica se baseia em três pilares: controle ambiental, lavagem nasal e medicamentos. A combinação certa depende da gravidade dos sintomas.

1. Lavagem Nasal com Soro Fisiológico

A lavagem nasal é o primeiro passo do tratamento e uma das medidas mais eficazes. Remove alérgenos, secreções e muco, alivia a obstrução e melhora a absorção de medicamentos nasais.

Como Fazer a Lavagem Nasal por Idade

Bebês (0-1 ano): Soro fisiológico em conta-gotas ou seringa de 3ml — 2-3 gotas por narina

Crianças (1-5 anos): Seringa de 10-20ml com soro fisiológico — cabeça inclinada para frente

Crianças maiores (5+ anos): Squeeze bottle ou lota — podem aprender a fazer sozinhas

Frequência: 2-3x/dia na manutenção; até 6x/dia durante crises

2. Medicamentos

O tipo de medicamento depende da gravidade e da classificação da rinite. Sempre sob orientação do pediatra.

Anti-histamínicos Orais

Para quem: Rinite leve a moderada. Aliviam coceira, espirros e coriza.

Prefira os de segunda geração (loratadina, desloratadina, cetirizina) — causam menos sonolência que os antigos (dexclorfeniramina). Disponíveis em gotas para crianças pequenas.

Corticoides Nasais (spray)

Para quem: Rinite moderada a grave, especialmente quando há obstrução nasal importante.

São o tratamento mais eficaz da rinite alérgica. Mometasona e fluticasona podem ser usados a partir dos 2 anos. Na forma de spray nasal, a absorção sistêmica é mínima — são seguros para uso prolongado quando prescritos pelo médico.

Imunoterapia (Vacina de Alergia)

Para quem: Rinite moderada a grave que não responde bem aos medicamentos, ou quando se quer modificar o curso da doença.

É o único tratamento que pode mudar o curso natural da doença. Consiste em doses crescentes do alérgeno (sublingual ou injetável) por 3-5 anos. Indicado a partir dos 5 anos de idade.

Atenção: Descongestionantes Nasais

Nunca use descongestionantes nasais (nafazolina, oximetazolina) em crianças sem orientação médica. Esses sprays aliviam rapidamente, mas causam efeito rebote — o nariz entope mais do que antes. O uso por mais de 3-5 dias pode causar rinite medicamentosa (dependência do spray). Em crianças pequenas, podem causar efeitos cardiovasculares graves.

3. Controle Ambiental

Reduzir a exposição aos alérgenos é essencial para diminuir a frequência e intensidade das crises. Foque especialmente no quarto da criança, onde ela passa muitas horas:

Checklist para o Quarto da Criança

Capa antiácaro em colchão e travesseiro

Lavar roupas de cama semanalmente (água quente, 60°C)

Retirar bichos de pelúcia ou lavá-los semanalmente

Trocar cortinas pesadas por persianas laváveis

Aspirar com filtro HEPA (não varrer)

Manter ambiente ventilado (evitar mofo)

Evitar produtos de limpeza com cheiro forte

Proibir fumo dentro de casa e no carro

Complicações da Rinite Não Tratada

A rinite alérgica sem tratamento adequado pode levar a diversas complicações que afetam o desenvolvimento da criança:

Sinusite de repetição — a inflamação nasal crônica bloqueia a drenagem dos seios paranasais

Otite média — obstrução da trompa de Eustáquio pode causar infecções de ouvido recorrentes

Asma — 40% das crianças com rinite desenvolvem asma (a rinite é fator de risco)

Alterações faciais — respiração bucal crônica pode causar face alongada, palato alto e má oclusão dentária

Distúrbios do sono — nariz entupido atrapalha o sono profundo, podendo afetar crescimento e aprendizado

Quando Procurar o Pediatra

Sinais de Alerta — Procure Atendimento

Obstrução nasal que atrapalha o sono, alimentação ou fala

Roncos intensos ou pausas na respiração durante o sono

Respiração bucal constante (boca aberta mesmo acordada)

Secreção nasal amarelada/esverdeada com febre (pode ser sinusite)

Dor de cabeça frequente ou dor facial

Sangramento nasal recorrente

Sintomas não melhoram com anti-histamínicos após 2 semanas

Rinite Alérgica no Outono e Inverno

Em São Paulo, os meses de outono e inverno (março a agosto) são os mais desafiadores para crianças com rinite. O ar frio e seco irrita a mucosa nasal, e as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados, aumentando a exposição a ácaros e mofo.

Dicas para o Outono/Inverno

  • Reforce a lavagem nasal — 3x/dia mínimo nos meses frios
  • Lave cobertores e edredons antes de usar (ficaram guardados acumulando ácaros)
  • Mantenha o ambiente umidificado — umidificador ou toalha molhada no quarto
  • Vista a criança antes de sair — o choque térmico piora os espirros
  • Vacine contra gripeinfecções respiratórias agravam a rinite

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Referências Científicas

  1. ASBAI. IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Rinite Alérgica. Arq Asma Alerg Imunol. 2018.
  2. Bousquet J, et al. ARIA 2016: Care pathways for allergen immunotherapy. Allergy. 2019;74(7):1249-1259.
  3. Solé D, et al. Prevalence of symptoms of asthma, rhinitis, and atopic eczema among Brazilian children and adolescents (ISAAC Phase 3). J Pediatr (Rio J). 2006;82(5):341-346.
  4. Sociedade Brasileira de Pediatria. Rinite Alérgica na Infância. Guia Prático de Atualização. 2021.
  5. Global Initiative for Asthma (GINA) and Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma (ARIA). 2023 Update.

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