Mão-pé-boca: Sintomas, Tratamento e Isolamento
Dra. Paula Andrade
CRM-SP 204778 | RQE 131771 | Título SBP 2024
A creche mandou aviso de surto de mão-pé-boca e seu filho chegou em casa com febre, recusando comida e com a boquinha cheia de aftas — o cenário clássico que apavora os pais. A boa notícia: na grande maioria dos casos a doença é autolimitada e passa sozinha em 7 a 10 dias. O que você precisa saber é o que fazer, o que não fazer e principalmente quando ligar para o pediatra.
Resumo Rápido
→Causa: Coxsackievírus (mais comum) ou Enterovírus 71 — altamente contagioso
→Sintomas clássicos: Febre → aftas na boca → bolhas nas mãos, pés e nádegas
→Tratamento: Paracetamol ou ibuprofeno + hidratação + alimentos frios e macios
→Isolamento: Até febre sumir por 24h E todas as bolhas estarem secas
→Vacina: Não existe no Brasil — prevenção é higiene das mãos
→Curiosidade: Queda das unhas 4–8 semanas depois é normal (onychomadesis)
O que é a mão-pé-boca?
Mão-pé-boca (do inglês Hand, Foot and Mouth Disease — HFMD) é uma infecção viral aguda causada principalmente pelo Coxsackievírus A16 e pelo Enterovírus 71 (EV71). É extremamente comum em crianças abaixo de 5 anos e frequentemente gera surtos em creches e escolas.
Não confunda com febre aftosa — aquela é uma doença de animais e não tem relação com a mão-pé-boca humana.
Como a doença evolui — dia a dia
Dias 1–2 (Pródromo)
- • Febre de 38–39 °C
- • Irritabilidade e falta de apetite
- • Dor de garganta discreta
- • Já contagiosa antes das lesões aparecerem
Dias 2–3 (Lesões na boca)
- • Aparecem manchinhas vermelhas → vesículas → úlceras (aftas)
- • Locais: língua, gengiva, palato, bochechas
- • Dor intensa — criança recusa comer e beber
- • Este é o momento de maior sofrimento
Dias 3–5 (Exantema na pele)
- • Bolhas aparecem nas palmas das mãos e plantas dos pés
- • Também: nádegas, genitais, joelhos, cotovelos
- • Não coçam (diferente da catapora)
- • Novos brotos podem surgir por 2–3 dias
Dias 7–10 (Resolução)
- • Bolhas secam e formam crosta
- • Aftas cicatrizam sem deixar marca
- • Apetite retorna gradualmente
- • Volta à creche quando tudo estiver seco
Transmissão: como a doença se espalha
A mão-pé-boca é altamente contagiosa. O vírus se espalha por:
Contato direto
Fluido das bolhas, saliva, secreções nasais
Via fecal-oral
Fraldas, objetos contaminados, superfícies
Gotículas
Tosse, espirro, fala próxima
Período de contágio
- • Mais contagiosa: 1ª semana de doença, especialmente antes das bolhas aparecerem
- • O vírus pode ser eliminado nas fezes por semanas após a cura — reforce a higiene das mãos após trocar fraldas
- • Portadores assintomáticos existem — adultos podem transmitir sem ter sintomas
Tratamento: o que fazer em casa
Não existe tratamento antiviral específico. O objetivo é aliviar os sintomas e garantir hidratação adequada.
Paracetamol ou ibuprofeno
Para febre e dor. Paracetamol: 10–15 mg/kg a cada 4–6h. Ibuprofeno: 10 mg/kg a cada 6–8h (acima de 6 meses). Siga a orientação do pediatra.
Hidratação — prioridade máxima
As aftas doem e a criança recusa líquidos. Ofereça frequentemente em pequenas quantidades. Recusa por mais de 6h = ir ao pediatra.
Alimentos frios e macios
Iogurte, sorvete, banana amassada, gelatina, picolé de fruta. Evite: laranja, limão, tomate, salgadinhos, alimentos quentes.
Higiene local
Lave bem as mãos com água e sabão frequentemente. Desinfete brinquedos, chupetas e superfícies com álcool 70% ou água sanitária diluída.
Roupas leves
Evite roupas apertadas sobre as bolhas. Não estoure as bolhas — isso aumenta o risco de infecção bacteriana.
Não precisa de antibiótico
A mão-pé-boca é viral — antibióticos não adiantam. Use apenas se o médico identificar infecção bacteriana secundária.
Dúvidas sobre mão-pé-boca?
A Dra. Paula Andrade atende presencialmente e por teleconsulta em São Paulo. Avaliação pediátrica com tempo para todas as suas dúvidas.
Agendar ConsultaSinais de alerta — quando procurar o pediatra
A maioria dos casos evolui bem, mas fique atento a estes sinais que exigem avaliação médica:
- Criança recusa líquidos por mais de 6 horas (risco de desidratação)
- Febre acima de 39,5 °C que não cede com antitérmico, ou que volta após melhora
- Vômitos persistentes que impedem hidratação oral
- Letargia excessiva, dificuldade para acordar ou confusão mental
- Dificuldade para respirar ou respiração rápida
- Dor de cabeça intensa, rigidez de nuca — sinais de meningite
- Convulsão
- Bolhas que ficam muito vermelhas, quentes ou com pus (infecção bacteriana)
- Bebê abaixo de 6 meses com qualquer um dos sintomas acima
Mão-pé-boca vs. herpangina — qual a diferença?
| Característica | Mão-pé-boca | Herpangina |
|---|---|---|
| Agente viral | Coxsackievírus A16, EV71 | Coxsackievírus A (outros sorotipos) |
| Lesões na boca | Sim — palato, língua, bochechas | Sim — só na parte de trás da boca/garganta |
| Lesões na pele | Sim — mãos, pés, nádegas | Não |
| Febre | Sim (38–39 °C) | Sim (pode ser mais alta) |
| Tratamento | Sintomático — igual | Sintomático — igual |
Queda das unhas após mão-pé-boca — é normal?
Onychomadesis — saiba o que é antes de se assustar
Até 30% das crianças que tiveram mão-pé-boca perdem as unhas parcial ou totalmente 4 a 8 semanas após a infecção. O mecanismo é simples: o vírus interrompe temporariamente a produção da unha na raiz, criando uma linha de fraqueza que eventualmente separa a unha do leito ungueal.
Não é perigoso e não requer tratamento. As unhas crescem de volta normalmente em 1 a 3 meses. Vale avisar o pediatra para ter o registro no prontuário.
Isolamento e volta à creche
Regras de isolamento
- Mantenha a criança em casa enquanto houver febre OU bolhas abertas (com líquido)
- Retorno permitido: febre ausente por ≥24h sem antitérmico E todas as bolhas secas e em crosta
- Avise a creche — outras famílias precisam saber para observar seus filhos
- Lave as mãos com frequência, especialmente após troca de fralda — o vírus permanece nas fezes por semanas
Prevenção — não existe vacina, mas a higiene funciona
No Brasil não há vacina contra mão-pé-boca. A prevenção se baseia em medidas simples mas eficazes:
Lavar as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos — antes de comer, após trocar fralda, após usar o banheiro
Não compartilhar talheres, copos, chupetas ou toalhas
Limpar e desinfetar brinquedos e superfícies frequentemente tocadas
Evitar contato próximo (beijos, abraços) com crianças doentes
Cobrir a boca ao tossir ou espirrar
Manter crianças doentes em casa durante o período de contágio
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